Sempre que penso em um jogo para trazer a esta coluna, o primeiro aspecto que avalio é a direção de arte. Direção de arte não é apenas uma forma de fazer uma peça/jogo/filme ficar mais belo ou atrativo, é dar sentido ao seu aspecto visual, responder aos “porquês” das escolhas de cada traço ou forma e tornar toda a experiência consistente.

Em todos esses anos, pouquíssimas vezes eu presenciei uma escolha tão condizente quanto o estilo minimalista aplicado à direção de arte de Journey. Sua narrativa isenta de textos ou diálogos consegue trazer uma mensagem profunda, metalinguística e reflexiva através do seu game-design e das escolhas da direção de arte.

Journey é, em síntese, uma alegoria em forma de gameplay à Jornada do Herói como analisada por Joseph Campbell no livro “O Herói das Mil Faces“, que inspirou filmes como Star Wars e Matrix. Você assume o controle do último descendente de uma civilização destruída por uma catástrofe da qual não tem memória alguma. Tudo o que vê à sua frente é um deserto extenso cheio de ruínas de palácios antigos e lápides, e longe no horizonte: um feixe de luz cortando os céus. Aparentemente, o único caminho a seguir é ir de encontro a ele.

 

Sua jornada até a montanha iluminada passa por diversos estágios que representam cada etapa da “Jornada do Herói”, tudo sem usar uma simples linha de texto sequer: você sente estar vivenciando a jornada, ou invés de assisti-la ser vivenciada por um herói fictício. Você tem uma primeira experiência com o mundo comum: o ambiente do jogo e seus comandos simples, recebe o chamado para a aventura, recebe um presente sobrenatural que lhe auxilia em seus desafios, é guiado por um mentor… e assim por diante.

A alguns meses, elaborei uma workshop de roteiro para a equipe da Putz Filmes e convidados sobre estrutura narrativa. Ao invés de mostrar um filme que utilizasse a estrutura do monomito em seu roteiro, pedi para que cada um jogasse Journey até o final e apresentei os passos da jornada em seguida. Alguns disseram que estraguei para sempre a experiência de ver filmes (brincadeira), outros alegarem ter aberto a mente para avaliar melhor os roteiros e ter uma noção do significado de cada elemento de uma narrativa.

 

Como se a experiência visual e sensorial de Journey não fosse o bastante, ela se completa com a magnífica trilha de Austin Wintory  que lhe concedeu o prêmio Grammy Internacional de Música em 2013 e fazendo de Journey o primeiro Vídeo Game em toda a história a ter sua trilha vencedora do prêmio.

Journey é uma experiência imersiva inesquecível que consegue romper a barreira da língua e da compreensão, sendo recomendado para todas as idades. Garanto que você nunca mais será a mesma pessoa depois de jogá-lo. Para comemorar o sucesso da Game, a Sony acaba de lançar uma versão especial para Playstation 4, corre lá.