Esta é a segunda vez neste ano que quebro minha regra com relação a sempre trazer jogos artísticos e diferenciados, mas se faz necessário.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain não só é um dos lançamentos mais importantes de 2015 e forte candidato a jogo do ano, como também representa o encerramento de seu legado de 28 anos, cuja história se confunde com a própria história dos videogames como linguagem. Se hoje você pode ver jogos que extrapolam os limites entre o que é cinema e o que é videogame, definitivamente é graças a Metal Gear e seu criador.

 

Em 1987, Hideo Kojima era um jovem apaixonado por cinema

que sonhava trabalhar em grandes produções ao estilo de Hollywood nos anos 80, mas acabou indo parar na Konami – empresa que vocês devem se lembrar por jogos como Castlevania e International Superstar Soccer – mas tinha extrema dificuldade de se enquadrar na empresa por não saber programar. Na época, as empresas de desenvolvimento de games eram bem parecidas com as nossas Startups de hoje: pequenas e com um método de trabalho mais orgânico, onde todo mundo fazia de tudo. Frustrado por nunca ter conseguido finalizar um projeto sequer, Kojima foi parar em uma divisão dentro da Konami responsável por desenvolver para plataformas secundárias, como o MSX, uma espécie de computador caseiro ligado à televisão que fazia um relativo sucesso no Japão e no Brasil. Seu primeiro projeto no MSX foi um game de ação militar inspirado em filmes como Fuga de Nova York e Exterminador do Futuro: Metal Gear.

Devido às limitações de processamento do console, o jogo não podia colocar muitos inimigos na tela. A ação frenética de títulos de sucesso da época como “Contra” deu lugar a uma abordagem mais sutil: o herói controlado pelo jogador não poderia ser um exército de um homem só como tantos outros heróis de ação. Snake deveria passar pela base inimiga se esgueirando pelos cantos como um infiltrador, evitando o máximo de contato com inimigos. Nascia aqui o gênero de jogos Stealth.

Seu roteiro contextualizava bem o universo Sci-Fi criado ali:

o Herói de codinome Solid Snake é enviado para a nação paramilitar de Outer Heaven para resgatar um cientista, sua filha e um agente de sua mesma organização que fora capturado, Grey Fox. No local, ele acaba descobrindo os planos de Outer Heaven para a criação de um tanque bípede, capaz de lançar ogivas nucleares de qualquer lugar do mundo: o “Metal Gear”. O que para a época já era bastante complexo para um roteiro de videogame.

Metal Gear fez um estrondoso sucesso no MSX, mas infelizmente poucas pessoas possuíam o console e o jogo acabou se tornando um cult de nicho. O game até recebeu uma versão para o Nintendinho para tentar popularizar e uma sequência 3 meses depois feita totalmente sem a supervisão de seu criador, que não tem absolutamente nada a ver com a série. Em 1990, Kojima retornou ao MSX para fazer uma sequência verdadeira: Metal Gear 2, que acabou ficando para o limbo dos jogos que quase ninguém jogou por rodar em consoles que ninguém teve.

A conturbada saga de Solid Snake realmente ganhou sua forma em 1998 com sua estreia no Playstation: Metal Gear Solid trazia uma narrativa totalmente cinematográfica com atuação de voz dos personagens de altíssimo nível, ângulos de câmera e cortes bem pautados. Hideo Kojima, um épico monumental cheio de personagens icônicos com motivações claras. Basta observar a cena abaixo, mesmo com os gráficos 3D totalmente datados, consegue passar toda a atmosfera do jogo.

Dez anos depois de sua última missão, Snake está recluso no Alasca treinando cães, quando é chamado pelo Coronel Roy Campbell para uma nova missão a serviço do Governo Americano. Ele deve infiltrar em uma instalação no arquipélago de Shadow Moses, tomada por ex-membros da Fox-Hound que ameaçam lançar um ataque nuclear caso suas demandas não sejam atendidas: uma massiva quantia em dinheiro e os restos mortais de seu ex-líder, Big Boss. Snake deve infiltrar na base sozinho, impedir os terroristas e resgatar dois VIPs importantes para o Governo. Durante sua missão, uma série de eventos e reviravoltas imprevisíveis colocam o espectador grudado na poltrona, sem nunca levar a narrativa para fora das ilhas.

Os personagens que Snake encontra são memoráveis: um projetista de armas fascinado por desenhos japoneses, uma atiradora de elite apaixonada por seu trabalho, um ninja cyborg com tendências masoquistas. É um show de figuras caricatas dignas de uma história em quadrinhos que se encaixam perfeitamente no universo de teorias conspiratórias criado por Kojima.

Por mais que haja todo um trabalho em torno de contar uma história como um filme, em nenhum momento Metal Gear Solid esconde o fato de que é um jogo: desde personagens dizendo quais botões você deve apertar, até o momento em que um dos chefes do jogo, Psycho Mantis, alega estar lendo sua mente enquanto na verdade está vasculhando seu memory card para saber quais outros títulos você tem jogado.

Essas quebras na quarta parede acabaram se tornando marca registrada da série. Metal Gear é considerado por alguns críticos uma verdadeira obra pós-moderna que subverte a definição de videogame e convida o jogador a se levantar do sofá e questionar suas motivações.

Para os que desejam conhecer os primeiros jogos da série, a melhor forma é através da Legacy Colection do Playstation 3, hoje o único console onde você pode encontrar definitivamente todos os jogos canônicos. Sendo entre eles, Metal Gear Solid 3, o meu preferido, devido ao seu climão James Bond com direito a música cantada de abertura e a tretinha CIAxKJB na Guerra Fria.

O que nos traz a 2015 com The Phantom Pain

Lançado no dia 1º de Setembro e já tendo consumido 22 horas da minha vida, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain é até agora o mais forte candidato a jogo do ano, junto com The Witcher 3: Wild Hunt, do qual já falei aqui no blog da Putz.

O jogo retorna a série cronologicamente a 1984 e te coloca na pele do intitulado “Big Boss”, que deserta das forças especiais para montar sua própria facção: os “Soldados Sem Fronteiras”, uma organização mercenária livre de afiliações ou idealismos políticos ou religiosos. Ele acorda de um coma de 9 anos que sofreu após um ataque a sua primeira base em 74. Agora ele precisa reconstruí-la, recrutar novos membros para sua facção e ir atrás da organização responsável pelo ataque em busca de respostas e vingança.

 

Como é de praxe dos jogos AAA de hoje em dia, MGSV é imenso!

Você é jogado de helicóptero em áreas vastas no Afeganistão e na África ocupadas por facções militares e terroristas onde deve cumprir missões de infiltração, resgate, interceptação, entre outras. Os corredores claustrofóbicos dos jogos anteriores dão lugar a pequenas vilas ocupadas por soldados. E não existe, repito, não existe forma correta de se cumprir uma missão. Você pode mapear de longe a base inimiga e traçar sua própria rota de infiltração. Pode por todos os soldados para dormir com tranquilizantes, se aproximar deles sorrateiramente, pegar-lhes pelo pescoço e extorqui-los para conseguir informações importantes ou até mesmo entrar Full-Rambo na parada e explodir tudo pelos ares.

Você também pode recrutar soldados inimigos ou prisioneiros de guerra para se juntar aos “Soldados sem Fronteiras”. Gerenciando sua Mother Base, você cria divisões de pesquisa e desenvolvimento, inteligência, reconhecimento de campo, medicina, entre outros, para lhe auxiliar com equipamentos nas missões. E expandi-la cada vez mais. Pode parecer uma coisa meio “The Sims” de ficar evoluindo sua casinha, mas é viciante.

Há uma infinidade de coisas a fazer nos mapas de MGSV: há uma ONG paga por caro animal silvestre que você resgata das zonas de conflito e quanto mais raro o animal, maior a sua recompensa pela captura. É possível bancar o jogador de GTA e simplesmente instaurar o caos generalizado em uma base inimiga, ou brincar de gato e sapato com os soldados de Inteligência Artificial Limitada. Eu não sei quanto a você, mas eu sei que um jogo é realmente bom quando eu não consigo parar de querer falar sobre ele. E este lhe dá tanta liberdade para fazer as coisas do seu jeito, que você imediatamente vai para a internet ou procura algum amigo seu que está jogando também para contar as diferentes formas como vocês passaram por determinada missão.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain é, em termos de jogabilidade, o mais intuitivo e gostoso da série e extremamente recomendado para quem quer conhecê-la, mas nem tanto no quesito roteiro, pois demanda um certo conhecimento prévio para entender todas as maluquices que esse universo traz. A Konami provavelmente vai tentar extrair mais da franquia aproveitando a força do nome, mas duvido que tenha a mesma qualidade da série original. Para os fãs, é uma despedida honrosa de seu criador, Hideo Kojima, que aos 52 anos deixa a Konami e a série para seguir outros passos em sua carreira.

Você pode encontrá-lo no Playstation 3 e 4, no Xbox 360 ou Xbox One, e no PC.