O mundo nunca foi justo e nunca será. O que você faria se olhasse em volta e se visse sozinho? Se tudo o que você foi até ali fosse contestado, de uma forma um tanto quanto leviana? Ninguém acredita em você, nem o seu melhor amigo. Todos te olham torto, desconfiados, até mesmo quem se diz estar ao seu lado. Pessoas que jogaram fora uma vida inteira de convivência às custas de uma história mal contada. Como você se sentiria se a sua dignidade estivesse em jogo e você não conseguisse nem culpar o pivô disso tudo?

“A Caça” (Jagten), que pra mim é o melhor filme de 2014, trata tudo isso de forma cruel. Thomas Vinterberg, um dos fundadores do movimento Dogma 95, comanda a direção e dá um banho no seu sócio (do Dogma) “polêmicuzinho”. Vinterberg aborda muitos temas polêmicos em um único filme, de forma sutil, mas não deixa de te bater na cara! Entre a pedofilia, a capacidade de uma criança de criar uma situação irreparável, a forma leviana como – nós humanos – podemos acusar, julgar e condenar qualquer um com base em nada e essa vontade selvagem e irracional de fazer justiça com as próprias mãos (vigente em nosso país, onde tem sempre alguém pra aplaudir), é entregue uma brutal crítica social, e indo mais fundo, uma crítica humana.

Mads Mikkelsen é Lucas, um professor do jardim de infância de uma pequena cidade na Dinamarca, sobrevivendo à um divorcio e lutando para ter mais contato com seu filho. É respeitado por todos e adorado pelos seus alunos, até que a filha de seu melhor amigo – uma de suas alunas – sofrendo de uma paixonite de criança, obviamente não correspondida, resolve acusar seu professor de tê-la abusado. E como uma reação em cadeia, radicalmente pressionados e impressionados por professores e pais, outras crianças resolvem assumir essa fantasia para elas.

Então, a cidade inteira passa a condená-lo. Mesmo depois das investigações comprovarem a inocência do professor, ele é perseguido, abandonado e humilhado, vítima de violência física e psicológica. Mas como culpá-los? Por mais que você conheça alguém, aparentemente, é mais fácil acreditar na capacidade atroz do ser humano do que na sua integridade. Lucas é centrado e aguenta tudo, quase sempre com uma serenidade que se revela introspecção, sem ao menos se ressentir com a criança que causou tudo isso.

Mikkelsen está em uma de suas performances mais fortes, uma das mais fortes que eu já vi no cinema. É impossível não se conectar com o seu personagem, nem padecer do seu sofrimento e do desespero de se sentir só e traído por quem ele mais confiava. Há um momento na igreja em que ele entrega uma das cenas mais bonitas e dolorosas que eu me lembro de ter visto. É de fato uma pena a maior premiação do cinema esquecer de ao menos indicá-lo e constantemente esquecer de dar uma importância maior aos “filmes de língua estrangeira”.

No final das contas, Vinterberg deixa claro como a histeria pública pode condenar até o mais digno dos homens. E uma atitude irresponsável, seja de quem for (ninguém é inocente), é capaz de causar um dano irreparável.